Vovó Gabriela e seu olhar

Bordado sobre linho antigo, com fotografia e miçangas que traz referências a memória familiar

Vovó Gabriela e seu olhar
Bordado sobre linho antigo, com fotografia e miçangas 
42x35 cm
2024

Para minha mãe, por seus 91 anos (2024), e a todas as mulheres da família Almeida.

O tempo e o lugar são meus guias. Para fazer esse bordado me orientei pela imagem misteriosa dessa bonita dama, Gabriela, a avó paterna de minha mãe, portanto, minha bisavó. Quase nada sabemos sobre ela. Provavelmente nasceu em 1871 em Prados/MG, mas sabemos que partiu muito cedo, aos 24 anos, com tuberculose. Para fazer o bordado, as histórias foram chegando através das poucas memórias e algumas cartas e outros escritos que tentei decifrar, encontrando pistas e explorando registros invisibilizados, a partir da “lógica e da simbólica“ dos corpos e das falas de minha mãe e de uma de minhas tias…

Em qual casa das ruas acidentadas de Prados Vovó Gabriela teria vivido? Teria sofrido muito? O que lhe interessava? Teria ela se admirado com as histórias de sua conterrânea Hipólita Jacinta, a única mulher inconfidente que viveu em sua cidade entre os séculos XVIII e XIX? (Gosto de acreditar nisso…)

Ela gostava de arte. Em uma carta escrita a um dos seus irmãos, pedia que levasse partituras de ópera para harpa e flauta e veludo azul claro para bordar. Onde teria aprendido a tocar harpa? Teria sido na Lira Ceciliana de Prados, ou no colégio interno do Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição de Macaúbas, em Santa Luzia? Como seriam os seus bordados?

No bordado procuro incluir elementos dessa atmosfera romântica: a cidade de Prados ao longe, com sua Matriz de Nossa Senhora da Conceição, santa presente nos nomes de várias mulheres da família nesse período… um anjo do barroco mineiro de Manuel da Costa Ataíde, da Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto… flores cravinas que eram do gosto de meu avô… palavras coletadas nas cartas e poemas de amor do meu bisavô Almeida... referências à harpa e às notas musicais de um prelúdio de Naderman (seria esse tipo de música que minha bisavó tocava?) … as mulheres desse tronco da família, Jerônima, Maria Conceição, Cândida, Manuelita, Mariete, Maria José, Rachel, Ruth, Maria Margarida e tantas outras Marias que vieram depois…